Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar. Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar. Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.
Conversavam durante o despontar da aurora,uma Estrela, uma Pérola, uma Lágrima e um Orvalho. Dizia ufana a Estrela: "Quem diria que eu tivesse o trabalho de descer das alturas luminosas, para vir conversar com vocês três?... Não sabem que sou eu mais alta do que as nuvens, e que posso talvez fazer extasiar toda a amplidão?... Não venho de uma existência transitória. Desde que o mundo existe, acendo o firmamento por entre o universal deslumbramento... Qual de vocês terá tamanha glória, se não passam do chão?"
Mas, respondeu a Pérola vaidosa: "Tu, Estrela? Tu não passas de um grão de resplendor, metido na poeira do infinito... Não és senão insignificante mosquito... Enquanto eu, lá no fundo dos oceanos, sou buscada e vendida aos soberanos, para ornar com reflexos siderais as coroas reais... Valho mais do que tu, Estrela... E mais ainda valho, que um simples Orvalho, pequenas gotas d’água de mínimo valor..."
Disse o Orvalho com mágoa: "Nenhuma de vocês possui o encanto de se destilar em forma de beijos na face veludínea de uma flor... Eu venho lá de cima, radiante, nos braços da alvorada, para cobrir o seio de uma rosa, e fazê-la contente em tal instante, que vale a pena vê-la tão ditosa, e ver florido o coração da terra engolfada no pranto.... Tudo em torno de mim tem mais viço e frescor... Eis como sou feliz: ou na campina, ou no cimo da serra verdejante, sou sempre uma esperança cristalina... O meu brilho... não tem competidor..."
Calou-se o Orvalho. E a Lágrima? Coitada.. Ela rolada na terra úmida e fria nada ousava dizer.
"E que respondes, tu? Perguntou-lhe a Estrela com sarcasmo.
A Lágrima, tocada pelo róseo condão do entusiasmo, com voz de mansidão, resolveu responder: "Nasci para o sublime... Sou o perdão no crime, e a vibração no amor... Bailo no olhar risonho da alegria... Brilho no olhar tristíssimo da dor. Sou a alma da ternura e da harmonia. Sou até estribilho, na lira soluçante dos poetas... Sou oração nos olhos dos ascetas. Sou relíquia de mãe em coração de filho, sou lembrança de filho em coração de mãe... Fui eu, um dia, juro-lhes por Deus; que ensinei a saudade a soletrar adeus... Não vivo sobre seios perfumosos, nem colos orgulhosos, na ostentação efêmera do luxo; porém, penetro no espírito do mundo... seja do rei, do sábio mais profundo... do rústico, do mais vil, do pecador, do santo... até nas faces do Senhor, um dia, já rolei... Eu, Lágrima pequena, penetrei no coração de Deus e fiz abrir-se extasiado o pórtico dos céus... Não sei quantos pecados já lavei...'
Calou-se a Lágrima. ... O silêncio a tudo isso contemplava serenamente na vastidão vazia...
A Estrela subiu aos céus, escondeu-se sob uma espessa nuvem, e chorava arrependida...
A Pérola desceu à profundez dos mares e também chorava...
O Orvalho, tremulando sobre a relva, também chorava...
Veja Não diga que a canção está perdida Tenha fé em Deus, tenha fé na vida Tente outra vez
Beba Pois a água viva ainda está na fonte Você tem dois pés para cruzar a ponte Nada acabou, não não não não
Tente Levante sua mão sedenta e recomece a andar Não pense que a cabeça agüenta se você parar, não não não não Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira Bailando no ar
Queira Basta ser sincero e desejar profundo Você será capaz de sacudir o mundo, vai Tente outra vez
Tente E não diga que a vitória está perdida Se é de batalhas que se vive a vida Tente outra vez